MENU
Nordeste lidera mortes de mulheres por arma de fogo
Dados foram divulgados pelo Instituto Sou da Paz
Radioagência Nacional - Por Sayonara Moreno
Publicado em 16/03/2026 11:58
Atualizadas
© Fernando Frazão/Agência Brasil

A região Nordeste concentrou mais da metade dos assassinatos de mulheres, por arma de fogo, no Brasil, em 2024. Os dados são do relatório pela vida das mulheres - o papel da arma de fogo na violência de gênero, do Instituto Sou da Paz, divulgados neste mês da mulher.

Na avaliação social do problema, a professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense, Jacqueline Muniz, acredita que a política que flexibilizou a compra de armas no Brasil, entre 2019 e 2022, foi um “desserviço” que explica parte do problema.

"A presença disseminada de armas de fogo e sua capilaridade, sua expansão, no seu barateamento, permitiu que o matador de mulher, que é sempre um cidadão de bem, um suposto bom pai e péssimo marido, ou péssimo ex-marido, ou péssimo ex-namorado, ou péssimo ex-companheiro, possa fazer uso desse recurso e se justificar. A disseminação das armas de fogo, elas prestaram esse desserviço. E mesmo hoje com a mudança do decreto, com a mudança da legislação, tem muita arma que já tá na rua, tem muita arma que tá acessível.

Natália Pollachi, Diretora de projetos do Instituto Sou da Paz, atribui o problema, também a outros fatores, como acesso a serviços públicos e à questão social.

 "Um deles é a disponibilidade de serviços públicos disponíveis, e aí os bairros com menos serviço público e possivelmente mais vulneráveis têm índices maiores de violência letal contra a mulher. Então pode ser uma questão relacionada a menor disponibilidade de serviços públicos em parte da região nordeste. E tem um segundo elemento bastante relevante, que é um elemento cultural: o quão disseminada tá a percepção de que as mulheres são pessoas com igualdade de direitos, ou quão disseminada tá a percepção, enfim, uma concepção ainda mais machista, ainda mais controladora e violenta da relação dessa sociedade com as mulheres."

Na avaliação de Jacqueline Muniz, as políticas sociais de autonomia às mulheres, por vezes, geram um “ressentimento” masculino sobre a perda de espaço “de autoridade”.

 É a região do país que, proporcionalmente, é muito atendida por políticas sociais e outras formas de empoderamento doméstico e familiar, o que reforça o papel autônomo de independência das mulheres, o que gera um grau de reação à perda do domínio, à perda da autoridade dentro de casa. É como se tivesse uma sobra de masculinidade que não pode ser gasta porque já perdeu esse monopólio, e que se expressa sobre a forma da violência. A violência é o ritual de você tentar resgatar um poder perdido que já não se coloca mais."

O levantamento do Instituto Sou da Paz aponta que está, também no Nordeste, o estado com o maior índice de morte de mulheres por arma de fogo: o Ceará, onde a cada dez assassinadas, quase oito são por tiro. Número ainda maior que a média da região nordeste que é de seis a cada dez.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Ceará informou que, em 2024, foram apreendidas quase 6.400 armas de fogo; e que, no ano seguinte, 2025, a apreensão aumentou para 7.200.

Também em 2025, a secretaria de segurança do Ceará registrou aumento de 15% no número de "prisões relacionadas a mortes de mulheres por crimes violentos”, em relação ao ano do estudo, 2024.

O levantamento revela ainda um outro dado “alarmante”: todas as mulheres assassinadas com arma de fogo nos estados de Alagoas, Acre, Amapá e Tocantins eram negras. Natália Pollachi, do Instituto Sou da Paz, atribui isso, mais uma vez às questões sociais impostas a essas mulheres.

 "Como a gente tem vários estudos que dizem que a facilidade de acesso a serviços públicos, a renda e etc. são elementos importantes para explicar maior ou menor exposição à violência contra a mulher, a gente sabe que a população de mulheres negras sofre uma série de desigualdades estruturais, históricas, de acesso à educação, a emprego, a média de renda, a morar em locais com mais serviços públicos disponíveis. Isso faz com que elas se tornem mais vulneráveis a essa violência."

Os números do levantamento ainda mostram que, em 2024, em todo país, as principais vítimas de homicídios por arma de fogo foram mulheres com idade entre 18 e 24 anos. Além disso, as armas de fogo foram utilizadas em 47% dos homicídios de mulheres em 2024, sendo o principal meio de agressão letal a elas.

A Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça registrou, no mesmo ano do levantamento, a apreensão de mais de 103 mil armas de fogo, principalmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Ceará e Bahia.

Fonte: Radioagência Nacional
Esta notícia foi publicada respeitando as políticas de reprodução da Radioagência Nacional.
Comentários